Razões para não desistir dos seus planos de estudar no exterior mesmo com a crise financeira no Brasil

Olá pessoal,

Pedi para a minha amiga e colega de profissão, Dra. Jane Kelli Aparecido, escrever um post sobre a experiência dela como estudante de direito nos EUA.  A Jane possui todas as características necessárias para uma carreira de sucesso: ética de trabalho impecável, disciplina, determinação, e muita garra.  Atualmente ela está estudando para o Bar de NY.  Podem fazer perguntas, mas não garantimos respostas rápidas porque queremos que ela se concentre 100% no Bar, Ok? 🙂

A experiência da Jane foi muito diferente da minha.  Eu sou residente permanente e financiei meus estudos com empréstimos.  A Jane não é residente, e toda a carreira de estudos dela foi financiada através de bolsas.  Que maravilha não!!?  $0 de dívida e muitos aprendizados!  Tanto eu como a Jane fazemos parte da classe trabalhadora no Brasil.  Pagamos nossas contas com nosso trabalho e tudo o que conquistamos foi sempre com muito suor.  Então não pense que estudar nos EUA é só para quem tem mamãe e papai bancando 😉

Segue o que ela escreveu.

Pretendo focar este texto em estudos nos Estados Unidos porque estou em Columbus, Ohio, há pouco mais de um ano e passei pela fase de buscar formas de financiar meus estudos, moradia e demais gastos aqui. Contudo, mesmo que você pretenda estudar em outros países, algumas dicas deste texto podem ser úteis.

Muitos brasileiros não se deixaram abalar pela alta do dólar e estão aproveitando as passagens mais baratas e as promoções que combinam passagem e cursos. Três amigos meus, que nunca haviam viajado para o exterior, aproveitaram o momento para fazer cursos de idiomas e, outros dois, que sempre viajam, investiram em um novo plano de ferias.

Contudo, a dúvida maior é em relação a cursos de longa duração como os cursos de graduação que têm matrícula muito mais alta e trazem gastos maiores com estadia. As dicas que posso dar em relação a gastos com passagem, curso e estadia são as seguintes:

Passagem:

Como dito acima, este é um bom momento para aproveitar as promoções de agências de viagem e sites de busca. As passagens estão quase pela metade do preço que estavam antes da crise.

Matrícula e curso

Aposte em bolsas de estudo do exterior que já são em dólar. Se for fazer empréstimos faça-os no Brasil, em reais, ou procure empréstimos estudantis que não cobram juros (incluí uma lista de organizações com programas de bolsas e empréstimos ao final do texto).

Uma vez que todas as universidades dos Estados Unidos são pagas (mesmo as públicas) praticamente todas elas têm programas próprios de bolsas de estudos. Leve isso em consideração quando começar a se candidatar. Faculdades públicas costumam ser menos caras, mas têm programas de bolsas menores, todavia; é preciso levar em consideração também o custo de vida na cidade onde a faculdade está localizada, pois isso pode mudar a balança em relação às vantagens da faculdades públicas e privadas.

Além das bolsas das próprias faculdades, existe um grande número de organizações com bolsas de estudo para estrangeiros. Essas organizações têm intenções parecidas com as do programa do governo brasileiro, Ciências Sem Fronteiras, pois querem que pessoas possam estudar no exterior e, depois, voltar a seus países para aplicar ideias novas, com um ponto de vista mais global.

Quando fui admitida em faculdades americanas e percebi que não conseguiria comprovar a quantidade de fundos exigidos para o curso de mestrado em Direito Internacional, a faculdade que escolhi adiou minha matrícula para que eu pudesse procurar formas de complementar a bolsa que eles haviam me oferecido. Pesquisei muito e me candidatei a uma variedade de organizações tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Estadia

Para ajudar a diminuir seus gastos nos Estados Unidos (e eventuais dívida com empréstimos) procure um emprego no campus da faculdade, pois com visto de estudante você pode trabalhar até vinte horas por semana em bibliotecas, recepções, como assistente de pesquisa, enfim, existe uma variedade de opções que podem não ser exatamente na sua área, mas podem te ajudar financeiramente. Esses trabalhos no campus também servem para que você conheça pessoas, se insira na comunidade e pratique sua flexibilidade com o idioma. A maior parte das vagas pode ser encontrada no site das faculdades.

Quando cheguei aos Estados Unidos para meu curso, eu já tinha uma entrevista marcada, pois havia entrado em contato com o departamento de recursos humanos da faculdade enquanto ainda estava no Brasil.

Outra dica é dividir um apartamento com outros estudantes em situação parecida com a sua (você sabia que um dólar é igual a mais de seis yuan chineses e até sessenta rupias indianas?). Além de diminuir drasticamente despesas com aluguel, energia, Internet etc, isso também ajuda a conhecer pessoas e culturas diversas e, com certeza, vai fazer sua experiência muito mais global do que você imaginava.

Depois de formados, alunos estrangeiros podem estender o visto de estudante por um ano para o OPT (Optional Practical Training). Esse período serve para que você coloque o que aprendeu em pratica por meio de estágios, por exemplo. Alguns estágios são remunerados e, mais uma vez, podem ser uma forma de ajudar a diminuir suas dívidas no Brasil.

Nesse momento, sua preocupação com a alta do dólar se inverte. O fato de o dólar estar tão alto em relação ao real pode ser algo a seu favor. Imagine que você consiga um estágio e que também consiga poupar um pouco; de volta ao Brasil, aquele dinheiro que você economizou nos Estados Unidos pode se tornar quatro vezes maior em reais e, portanto, ser bem mais eficiente para quitar suas dívidas.

Ainda, qualquer imposto que tenha sido descontado de seus pagamentos nos Estados Unidos, enquanto você trabalhava, tanto no campus quanto pelo OPT, será devolvido posteriormente, ou seja, mais alguns dólares que se transformarão em uma quantidade razoável de reais.

A maioria de meus colegas e eu conseguimos estágios ou empregos um pouco antes ou logo depois da formatura, tanto por meio de eventos de ‘networking’ e ‘career services’ da faculdade, quanto pela indicação de colegas de classe e amigos ou depois de muita pesquisa e várias candidaturas.

Claro que a situação financeira mundial é imprevisível e, de repente, tudo pode mudar. Antes de investimentos como esse é necessário fazer uma análise séria do que você quer para o futuro e quanto você está disposto a arriscar. Esse texto serve para mostrar que, como reza um ditado americano, ‘não se deve desperdiçar uma boa crise’ e todas as oportunidades que se abrem com ela.

Afinal, se diferenciar no mercado de trabalho, especialmente em um momento de crise, pode ser uma ótima escolha. E, claro, para aqueles que têm o sonho de conseguir um visto de trabalho ou até mesmo o famoso ‘green card’, para ficar de vez nos Estados Unidos, uma graduação e um estágio podem ser um bom começo.

* LL.M em Direito Internacional e Comparado pela Ohio State University – Moritz College of Law. Fellow da American Association of University Women & awardee da Scholarship for the Americas da Moritz School of Law.

* Bolsas no Brasil:

  1. Fundação Estudar: https://www.estudar.org.br/
  2. Organização dos Estados Americanos (também oferecem empréstimos): https://www.oas.org/pt/topicos/bolsas_estudo.asp
  3. Instituto Ling (direito): http://www.institutoling.org.br/index.php/mestrado-e-pos-graduacao/direito
  4. Rotary: https://www.rotary.org/myrotary/en/take-action/apply-grants

Bolsas nos Estados Unidos:

  1. American Association of University Women: http://www.aauw.org/what-we-do/educational-funding-and-awards/
  2. Philantropic Education Organization: http://www.peointernational.org/about-peo-international-peace-scholarship-ips
  3. Institute for Humane Studies: https://theihs.org/funding/humane-studies-fellowship/

Sites de pesquisa por bolsas de estudos:

  1. Schoolly: http://home.myscholly.com/
  2. Funding US Study: http://www.fundingusstudy.org/StateSearch.asp

 

 

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Tendências do Direito Brasileiro: Primeiro Simpósio sobre Segurança Jurídica dos Investimentos Financeiros no Brasil

Nos dias 31 de março e 1 de abril, a American University Washington College of Law, em Washigton, DC, apresentou o Primeiro Simpósio sobre Segurança Jurídica dos Investimentos Financeiros no Brasil.  O Simpósio, organizado por Tiago Salles, presidente do Instituto Justiça e Cidadania, contou com a presença de vários juristas, inclusive o Professor/Desembargador Franco de Godoi, da Faculdade de Direito de SBC – mundo pequeno!

As palestras foram apresentadas com um tom otimista, expondo que, apesar da crise atual, o Brasil é uma democracia bem estabelecida, com um sistema legal seguro.

Pessoalmente, foi importante tomar conhecimento das principais tendências e áreas em crescimento no Brasil.  Há uma preocupação clara com o número de ações judiciais que chegam ao STJ e com a carga dos juízes em geral.  A maioria das tendências têm como objetivo tornar o judiciário mais eficiente e rápido.  O desafio, no entanto, é manter a qualidade das decisões e equidade:

– Novo Código de Prcesso Civil – O novo código aumentará o poder e abrangência das Súmulas Vinculantes, com inspiração clara no sistema da common law.  Apesar de eu achar essa tendência muito boa, há uma preocupação com a uniformização das normas. Nos EUA, há uma divisão clara entre a common law de cada estado, que ao contrário dos estados brasileiros, têm muito poder.  Isso permite com que os precedentes reflitam a realidade e cultura específica de cada estado, que assim como no Brasil, podem ser muito diferentes.  Estou curiosa para ver como o Novo CPC mudará a forma de se advogar no Brasil.

– Arbitragem – O aumento da arbitragem como solução alternativa de conflitos também é algo para se observar.  Nos EUA o sistema é bem desenvolvido e com certeza ifluenciará novas leis brasileiras sobre o assunto.  Nos EUA, cláusulas de arbitragem são bem aceitas em contratos de trabalho e adesão.  Já que no Brasil as normas trabalhistas e direito do consumidor são muito mais paternalistas, será interessante ver se a arbitragem vai vingar ou não no Brasil.

– Compliance e anti-corrupção – Os escândalos de corrupção no Brasil forçarão a criação e aplicação de normas mais rígidas.  Isso criará um ambiente ainda mais regulado, mas mais favorável para investimento estrangeiro.  Infelizmente o assunto não foi desenvolvido com profundidade no evento, mas será interessante ver se o Brasil manterá o foro privilegiado e outras regalias que tornam o combate à corrupção bem mais difícil que nos EUA.

O ambiente colegial do Simpósio também chamou a atenção, já que foi conduzido em uma das salas da faculdade de direito da AU.  Não é sempre que se vê grandes nomes do direito brasileiros sentados numa sala de aula aprendendo uns com os outros.  O evento foi bastante importante e bem organizado.  Estarei presente no próximo!

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Dicas para Estudantes de Direito e Advogados

Desde que iniciei o blog, venho recebendo e-mails de estudantes de direito e advogados com interesse em estudar e trabalhar nos EUA. Resolvi escrever um post sobre o assunto para tirar algumas destas dúvidas. De tempos em tempos postarei algumas dicas. Aqui vão as primeiras:

  1. Aprimore o seu inglês – se você pretende estudar ou morar nos EUA, você precisa ter inglês realmente avançado. Não minta para você mesmo. Se o seu inglês não é bom, você irá sofrer.
  2. Seja independente – Hoje em dia temos todo o conhecimento do mundo na ponta dos nossos dedos. Os EUA é a terra do “do it yourself”. Não há lugar para estrangeiros preguiçosos. Você tem que fazer a sua parte, tomar controle da sua carreira. Não espere que alguem te dê todas as respostas. Se você não fizer por você, ninguém fará.
  3. Eleve o seu grau de profissionalismo – Nos EUA diploma de direito é um diploma equivalente a um doutorado, por tanto, sua ética e profissionalismo, deverão estar a altura. Há política, mas não há jeitinho brasileiro.
  4. Disciplina – Nos EUA não existem feriados todos os meses. Não há pausa. Não há descanso. Não há empregada doméstica para a classe média. Para ser bem sucedido, você terá que ter muita disciplina e garra. Você entenderá o conceito de “time is Money”, e terá que aprender a não desperdiçar nenhum segundo do seu dia. Será mais fácil se você começar agora.
  5. Suporte – Nada se alcança sozinho. Haverá momentos muito difíceis, onde você duvidará das suas habilidades. Rodeie-se de pessoas positivas, que tenham objetivos similares e te apoiem. Sem meu sistema de suporte, eu não chego a lugar algum!

Eu agradeço a todos por visitarem o blog e mandarem emails. Infelizmente eu não tenho muito tempo livre para responder a todos. Espero que o blog ajude!

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A armadilha no BitTorrent: quando aquele filminho de graça sai caro

Alguns meses atrás comecei a trabalhar com casos de quebras de direitos autorais envolvendo o BitTorrent.

BitTorrent é uma rede que conecta usuários ao redor no mundo para facilitar a troca de arquivos, incluindo filmes, séries e música. A maior parte destes aquivos são protegidos por direitos autorais nos EUA e infratores correm o risco de serem condenados a pagar de $3,000 a $150,000 por download ilegal.

Obviamente que nem todo mundo é pego. Mas aqueles que são, podem ser punidos severamente ou obrigados a negociar com os donos dos direitos autorais.

Uma das principais formas que os donos dos direitos encontraram de obter provas da infração é através da infiltração no BitTorrent.  Eles basicamente fazem o download do próprio conteúdo protegido de outros usuários da rede. No processo, eles adquirem prova da distribuição ilegal, pois o usuário disponibiliza o conteúdo, e o IP address do suposto infrator.

Como o nome e endereço do dono do IP address não vêm junto com o download, a única forma de descobrir essa informação é solicitando permissão da corte para obter o nome do dono do IP address com o provedor de internet. Uma vez que o provedor fornece a informação, o dono dos direitos pode processar o indivíduo.

O problema é que nem sempre o dono do IP address é o infrator. Roteadores wireless podem ser hackeados, e se mais de uma pessoa mora na casa, as chances de acusar a pessoa errada aumentam.

A coisa piora quando o dono dos direitos autorais são produtores de filmes pornográficos e o suposto infrator simplesmente não quer ou não pode ser associado com uma ação judicial envolvendo o download e distribuição ilegal desse tipo de conteúdo.

Surpreendentemente, empresas de filmes adultos são responsáveis por pelo menos 50% das ações judiciais envolvendo quebra de direitos autorais nos EUA. Pouquíssimos casos chegam a fase do julgamento e a maioria terminam em negociação.

Estas empresas tomam vantagem do estigma da pornografia, e encontraram na proteção legal um negócio extremamente lucrativo.

Estes casos obviamente atestaram a minha paranóia contra o BitTorrent.

Na terra do Tio Sam, meu caro, nothing is free.

 

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Dicas para Brasileiros Solicitando o Visto de Noiva(o) (Fiancé Visa) nos EUA

Eu escrevi este post para o blog do escritório que trabalho e estou repostando aqui!

Primeiramente, parabéns!  Se você está lendo este post é porque está prestes a se casar.  O único obstáculo, porém, é que seu futuro cônjuge é uma cidadã ou cidadão americano, e você, brasileira(o).  Organizar um casamento não é fácil.  Para casais onde um dos futuros cônjuges é estrangeiro, conseguir o visto apropriado é uma tarefa a mais na lista de preparativos.

Caso você esteja planejando se casar e estabelecer residência permanente nos EUA, o visto de noiva será um caminho praticamente obrigatório.  A boa notícia é que vocês não precisam passar por este processo sozinhos.

Seguem algumas dicas:

Procure um advogado: apesar de que constituir advogado não é obrigatório para solicitar vistos, você logo irá notar que todos os formulários devem ser respondidos em inglês, e que a linguagem das normas e formulários não são fáceis de compreender.  Principalmente se vocês já foram casado, têm filhos, possuem ficha criminal, nomes diferentes em documentos importantes, etc.

Gastem tempo juntos: é muito importante que vocês gastem tempo juntos (pelo menos um encontro face-a-face no período de 2 anos) e conheçam bem um ao outro.  Registrem momentos importantes com fotos, e mantenham o registro de conversas via email, Skype, Facebook, etc.  Estes documentos servirão como prova de que seu relacionamento é legítimo.

Não se case antes de obter o visto de noiva: o visto de noiva é um visto específico para casais que ainda não são legalmente casados.  Ele é uma permissão para casar-se nos EUA e estabelecer residência em seguida.  Para casais que são casados, existem outros vistos, como o visto de cônjuge (spouse visa).  A maior diferença é que no visto de noiva, a maior parte do processo, como a entrevista e exame médico, ocorrem antes da aprovação do visto e casamento, enquanto no “spouse visa”, a maior parte do processo acontece após o casamento.  Assim, se vocês pretendem morar nos EUA imediatamente após o casamento, o visto de noiva geralmente é a melhor opção.  Lembre-se também que a “união estável” brasileira não é reconhecida nos EUA, e por isso, não conta como casamento para fins de visto americano.

Organize-se: você é a maior fonte de informação sobre seu relacionamento. Mantenha documentos importantes arquivados; mantenha uma agenda de compromissos e responda às perguntas e solicitação de documentos de seu advogado e do USCIS de forma transparente e o mais rápido possível.  Grande parte do andamento do seu visto dependerá da quantidade de informações que você fornecer.

Relaxe: se seu relacionamento é legítimo e você preencheu todos os requisitos e documentos necessários para o visto, há grandes chances de que sua solicitação será aprovada.  Apesar de não haver garantias quanto a aprovação, delegar esta tarefa a um advogado pode tornar sua jornada um pouco mais trânquila.

Caso você tenha dúvidas e interesse em contratar um advogado nos EUA para te ajudar com seu Fiancé Visa, não hesite em entrar em contato conosco.

Dahman Law, LLC é um escritório de advocacia com escritórios em Columbus, Ohio e em Ann Arbor, Michigan.  Nossas áreas de atuação incluem imigração, direito comercial e empresarial, direito do trabalho, e outros. Aviso.

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O papel do júri no sistema americano

Olá amigos!

Esta semana tive a oportunidade de interpretar um julgamento de um caso envolvendo brasileiros na “court of common pleas”. Foi muito interessante observar a seleção de jurados, as instruções do juiz, e o papel do promotor e advogado de defesa.

Tudo foi conduzido com muita ordem e seriedade, e fiquei feliz de ver que os direitos dos envolvidos, mesmo que estrangeiros, estavam sendo protegidos de forma justa.

Nos EUA, o direito ao júri em casos criminais e civis é um direito protegido pela Constituição Federal e na maioria dos estados, pelas Constituições Estaduais.

O júri não é obrigatório, e há uma série de regras sobre a desistência deste direito. O mais comum é em casos civeis (principalmente em casos sofisticados de direito comercial), em que o “plaintiff” prefere que o juiz julgue o caso ao invés de um grupo de jurados leigos. Neste caso, o “trier of facts” é o juiz.

Quando o júri é o “trier of facts”, o papel do painel é decidir se os fatos alegados no caso são verdadeiros ou não. Por exemplo, se o testemunho da fulana é verdadeiro, se a arma encontrada foi a que matou o ciclano. Enquanto cabe ao juiz decidir as questões legais, como admissibilidade de provas, e decisões de “motions”.

Para mim, o mais interessante é o valor histórico e moral do papel do júri levando em conta todo o contexto do sistema americano. Ele entra em harmonia com a idéia de que a justiça é feita pelo povo para o povo. Já que o juri é formado por um grupo de cidadãos comuns, o “senso comum”, em todos os sentidos, é que decide o caso. O juiz é apenas o maestro, enquanto o encargo da decisão está nas mãos da sociedade.

Em compensação, no Brasil, o júri apenas julga crimes dolosos contra a vida. Em todos outros casos, juízes carregam um fardo super pesado pois não apenas são responsáveis pelas decisões como também são o alvo principal daqueles que possuem interesses em uma determinada decisão.

Obviamente que, como qualquer sistema, o sistema do júri também possui falhas e é passível de corrupção e erros. No entanto, o julgamento desta semana me fez pensar.

Será que se no Brasil o júri fizesse parte do exercício da cidadania como nos EUA, juízes teriam menos receio de decidirem em equidade e estariam menos sujeitos a corrupção? Vale ressaltar que na maioria dos estados dos EUA, juizes são eleitos. Não há concurso como no Brasil!

O que você acha?

 

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A bolha imobiliária do Brasil: mito ou verdade?

Na última semana meu feed se encheu de artigos compartilhados por amigos sobre a bolha imobiliária brasileira. Claro que existe muita especulação sobre o assunto, e acho interessante ressaltar algumas diferenças entre a crise de 2008 nos EUA e a suposta crise imobiliária brasileira:

O mercado secundário do Brasil é muito pequeno

O grande motivo da crise americana foi o mercado secundário de securitização. Anos antes da crise, o governo Clinton aprovou medidas que incentivavam bancos a oferecer o maior número de financiamentos possíveis, afim de garantir moradia própria para a parcela pobre da população e aquecer o mercado.

Sedentos por novos clientes, os bancos passaram então a fazer de tudo, até mesmo a cometer fraudes espetaculares, para aprovar crédito para quem não poderia pagar – este tipo de empréstimo chama-se subprime.

Para diminuir o risco do mal negócio de emprestar uma quantia para quem não poderia pagar, os bancos então colocavam todos esses empréstimos subprime em montes separados, e vendiam fatias das guarantias desses empréstimos para investidores, através de um processo chamado de securitização. Esses investidores, por sua vez, revediam suas fatias em outros pedaços e assim por diante. A este mercado de venda e revenda dá-se o nome de secundário. Se os devedores pagassem em dia, os lucros seriam altíssimos, mas se dexassem de pagar, as perdas seriam devastadoras.

Mesmo com o risco enorme, os bancos e investidores literalmente apostaram na idéia do subprime – com o incentivo do governo, e por algum tempo garanham muito, mas muito dinheiro.

Quando uma pessoa deixava de pagar o empréstimo, o banco tinha que cobrir a parte desta pessoa, e vender a casa que havia sido dada como garantia do empréstimo. Com um mercado frio e uma economia em declínio, o pior aconteceu. Milhões de pessoas, por inúmeros motivos, deixaram de pagar seus empréstimos ao mesmo tempo, causando um efeito dominó devastador.

Os bancos então tiveram que retomar todas as casas não pagas. Para se livrar da dívida com os investidores o mais rápido possível e gerar renda, venderam as casas a preço de banana através de um processo chamado foreclosure. Mas não estamos falando de uma casa, e sim de milhões!

Naquela época, muitos investidores compraram muitas propriedades, pois sabiam que um dia o mercado iria voltar. Imagine só, uma casa que antes valia uns $150 mil sendo vendida por $50 mil, e revendida por $150 mil três anos depois!

O Brasil praticamente não tem um mercado secundário imobiliário desenvolvido como os EUA, o que é o lado bom de um governo protecionista. Apesar de o “programa minha casa minha vida” estar oferecendo crédito para a população pobre, há mecanismos de proteção que tentam os evitar erros cometidos nos EUA, e a maior parte dos empréstimos é dada por bancos do governo.

Aí você diz, “mas casas no Brasil estao muito altas! eu vi no site que compara os preços com casas no exterior!”

Sim, é verdade. Estão mesmo. Mas não pelo mesmos motivos da crise americana. No Brasil, a inflação, que desvaloriza o dinheiro, o protecionismo e o mercado aquecido é que causam os preços altos.

A boa notícia é que o Brasil é hot

Por conta do crescimento econômico, Copa, Olimpíadas, e marketing genial do governo petista, o Brasil hoje é um dos mercados mais quentes do mundo. Todo o mundo (literalmente) quer investir no Brasil, e a classe média brasileira, com mais poder de compra do que nunca, representa um mercado gigantesco. Satisfazer esse mercado é sonho de qualquer empresa estrangeira que precisa expandir.

O que acontece quando há muita procura por um produto? Os preços aumentam.

Imagine que você tem porquinho da índia que todo mundo quer, mas só é encontrado no seu bairro. Ou melhor, só na sua rua. Um dia você coloca ele a venda por R$5. No dia seguinte 1 milhão de compradores aparecem para comprar o seu porquinho. O que você faz? Aumenta o preço do porquinho!

Este porquinho, representa o mercado imobiliário do Brasil.

Esta demanda alta, porém, é uma faca de dois gumes

Por um lado ela é que mantém a economia brasileira viva, pois ela, juntamente com o protecionismo do governo – importadores que o digam!, aumenta o fluxo de dinheiro e permite que o governo tape os buracos das dívidas do Brasil. Mas por outro lado, muita demanda gera aumento de preços, que por sua vez, gera aumento do fluxo de capital. Muito capital significa inflação, e inflação alta significa que seu dinheiro não vale nada!

E isso é refletido no mercado inteiro. Minha mãe sempre reclama sobre como hoje em dia nada custa menos de R$100!

E a bolha?

A má notícia é que a bolha existe, mas acho que ela é mais inflacionária do que imobiliária per se. A outra má notícia é que crises são normais, pois elas permitem reorganizar a casa, cortar o excesso de gordura e começar de novo. Foi isso que aconteceu na época do Collor, do Fernando Henrique, e nos EUA em 2008.

Mas arrisco a dizer que ela só vai estourar mesmo quando o mercado brasileiro e a demanda pelo Brasil diminuir. Quando o Brasil engordar demais e deixar de ser hot… talvez lá pelo final das Olimpíadas?

Aí só Deus e o Lula sabem…

PS: A explicação sobre a crise americana é superficial, pois este é um blog, e não uma tese de mestrado.. 😉

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